O dia seguinte, sexta-feira, nasceu suave e frio e o alojamento estava coberto por uma névoa densa que tornava as pessoas desconhecidas irreais e robóticas, por hora até indesejáveis.
A essa altura já havia se espalhado a idéia da aventura de deixar Brasília e ir para Goiás. Novas companhias surgiram: a Maria e o Arthur.
A despedida do Planalto Central não poderia ter sido melhor: Uma visita ao Zoológico e uma grande festa de aniversário num bar um tanto sem-gracinha frequentado por universitários agranados e a granel.
Na madrugada de volta pro alojamento, com os novos parceiros de viagem definidos, minha única preocupação era esquentar meu corpo debaixo do maior número possível de cobertores e dormir por tempo indeterminado, mas as sete da manhã o Arthur já puxava os meus pés.
O Arthur, com a sua perspicácia de mochileiro, buscou no couchsurfing algum possível aventureiro que nos acompanhasse na jornada, e é bem aí que o Leandro e a sua picape entram na história. Fomos os quatro: Eu, Arthur, Leandro e a Maria numa viagem matinal rumo à Chapada dos Veadeiros.
Algumas pausas necessárias no caminho para esticar as pernas. Se fosse uma viagem circunstancialmente sem expectativas, seria deveras cansativa. Eu sentia que dentro de cada um de nós, com todas as nossas diferenças e desencaixes existia um vazio prazer por preencher. Eu sentia que de certa forma todos buscávamos as respostas das perguntas sem respostas e o que todos nós queríamos em comum era fugir de uma vida cotidiana que tinha se tornado entediante.
A Vila de São Jorge

O 1º passeio: Santuário Salto do Raizama, a uns 4km do povoado de

Dentro de mim não havia nada além de maravilha, além da vontade de jogar aquela paisagem no quintal da minha casa pra ser meu refúgio nos dias tempestivos.
Nessa mesma noite de sábado, após armamento de barracas no Camping Dragão e uma deliciosa macarronada preparada pelo Leandro na cozinha comunitária, voltamos ao Raizama pra comemorar o dia mundial do Rock. Um tributo ao Woodstock numa festa chamada Moonstock.
E antes que a gente pudesse entrar no carro, um grande clarão nos fez olhar para cima, para o alto, para aquele novo céu. Toda a imagem da via láctea com suas duzentas bilhões de estrelas preenchia os nossos campos de visão sem nenhum exagero, juro. E eu me senti feliz, me senti alada e num gesto egoísta voei até o alto e engoli um monte daquele brilho estelar porque queria o enfeite e o efeito do céu em minha boca.
Vinho, Led Zeppelin, Jimi Hendrix e alegria foram a companhia da noite.

O 2º passeio: Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. 12 km de trilhas que valeram cada gotinha de suor deixada pelo caminho. Vivemos numa paisagem cinematográfica do Cerrado brasileiro nas antigas rotas que eram usadas pelos garimpeiros. Caminhávamos pisando nos pequeninos cristais de quartzo até as paisagens mais surpreendentes, entre cachoeiras de até 120 metros, corredeiras e paredões de rochas sedimentares. Como dizia a Lalá a cada 500 metros percorridos "É natureza demais, papai!" ou a cada quilômetro "Obrigada, meu Deus!". Certamente a proposta da baixa temperatura das águas é de contribuir para que todas as paisagens sejam congeladas.

Eu já havia desistido de pensar quando uma ou outra pessoa querida surgia do meu passado e eu passava carinhosamente a desejar compartilhar aquela experiência nada, nada metafísica. Tudo o que me invadia era concreto.
Deixar a Chapada foi penoso, prolongamos ao máximo a volta para Brasília, mesmo sendo debaixo daquela proposital via láctea. Com o Leandro no comando e pós-agradecimentos pela oportunidade de tão boa viagem com tão excelente companhia, voltamos ao ponto inicial com a certeza de que a saudade deixou seu rastro para quem foi e para quem voltou. E da gente, certamente, ficou o desejo do regresso que cada um de nós depositou.